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Gastronomia

A chocolataria que nasceu num apartamento em Pétange

Aos 24 anos, Gabriel criou a sua própria chocolataria, a RG Chocolaterie.

© Créditos: Guy Jallay/Luxemburger Wort

Simon Laurent MARTIN

Assim que entramos no apartamento de Gabriel Mjahed em Pétange, um cheiro delicado a chocolate vem-nos às narinas. O chocolateiro, que acaba de lançar o seu próprio negócio, tem muito que fazer. "Os dias são intensos. Trabalho entre 14 e 15 horas por dia, mas não me queixo. O meu objetivo de vida tornou-se finalmente realidade", sorri, enquanto remove os moldes dos últimos produtos fabricados, barras com 68% de chocolate negro da Bolívia.

Daí o nome da sua chocolataria, batizada "RG" para "Les Rêves de Gabriel" ("Os sonhos de Gabriel", em português). "A minha família sempre me disse que eu sonhava muito. Aqui, o meu sonho tornou-se realidade", continua. Para o concretizar, o jovem de 24 anos, um verdadeiro apaixonado pela arte do chocolate, fez um percurso admirável para reunir todos os meios necessários.

Originário da região de Paris, mais precisamente de Nogent-sur-Marne, Gabriel confessa que foi uma criança "muito complicada". "Definitivamente não fui feito para estudos. Por isso, tomei a decisão de deixar de estudar depois da escola secundária", recorda. Na altura, três coisas animavam a sua vida: desporto, carros e a pastelaria. "Por isso, obtive um CAP (certificado de aptidão profissional) em pastelaria. Mas quando comecei a trabalhar numa padaria de bairro de alta qualidade, fiquei um pouco surpreendido com a dificuldade deste trabalho."

© Créditos: Guy Jallay

Originário da região de Paris, mais precisamente de Nogent-sur-Marne, Gabriel confessa que foi uma criança "muito complicada". "Definitivamente não fui feito para estudos. Por isso, tomei a decisão de deixar de estudar depois da escola secundária", recorda. Na altura, três coisas animavam a sua vida: desporto, carros e a pastelaria. "Por isso, obtive um CAP (certificado de aptidão profissional) em pastelaria. Mas quando comecei a trabalhar numa padaria de bairro de alta qualidade, fiquei um pouco surpreendido com a dificuldade deste trabalho."

Em adolescente, Gabriel não se imaginava a ganhar a vida num setor que exige tanta energia e que consome tanto tempo. Contudo, a sua paixão arrebatadora pelo chocolate levou-o por este caminho. "Chegou a época da Páscoa e foi aí que comecei a criar chocolates. Ganhei o gosto muito rapidamente e estranhamente, esses foram os únicos momentos em que não me descuidei com a tarefa. Adorei trabalhar com o chocolate, fazer composições bonitas, acrescentar cores, fazer algo personalizado e único".

O jovem, que na altura ainda era menor, encontrou finalmente o seu chamamento e foi tirar um novo CAP, desta vez de chocolateiro. Gabriel foi recebido e treinado na Bretanha, na Maison Henri Le Roux. O ilustre mestre chocolateiro que dá nome à instituição é nada mais nada menos que o inventor do caramelo de manteiga salgada. Uma valiosa oportunidade para Gabriel que, todos os meses, andava entre a sua casa em Paris e a Bretanha. "Tive a sorte de ser treinado por gente muito boa como Julien Gouzien que, ao contrário de muitos outros, era muito pedagógico."

Após a aprendizagem, foi trabalhar na não menos famosa chocolataria Sève em Lyon. Depois, aterrou na prestigiada Maison du Chocolat em Paris, um feito e tanto para o jovem. "Foi uma experiência incrível onde aprendi muito profissionalmente, mas também sobre mim mesmo. Trabalhar com Nicolas Cloiseau, eleito Melhor Trabalhador em França, foi uma experiência verdadeiramente formativa."

Gabriel ficou ali durante dois anos e meio. Estava convencido de que queria abrir o seu próprio estabelecimento. Usando os contactos que fez durante a sua formação, em particular Christophe Berthelot-Sampic, fundador do Atelier C em Paris, fez a sua primeira viagem ao México a fim deconhecer os bastidores das explorações de cacau.

Seis meses mais tarde, regressou a França e encontrou um emprego na casa de Olivier Bajard, Campeão Mundial das Sobremesas e também eleito Melhor Trabalhador de França, em Perpignan.

Mas estávamos em 2020 e a crise sanitária forçou Gabriel a recorrer ao desemprego parcial. De volta a Paris, o jovem viveu de biscates, incluindo um trabalho como estafeta da Uber Eats, para pôr algum dinheiro de parte.

Para um jovem nesta área, o Grão-Ducado representava uma verdadeira terra de oportunidades, que havia um lugar a ocupar no mercado do chocolate.
Gabriel Mjahed

E depois, finalmente, surgiu uma luz ao fundo do túnel. "Deparei-me com uma oferta de emprego em Genaveh, no Luxemburgo, procuravam um chocolateiro. Trabalhei na Oberweis, como sous-chef chocolateiro. E aí percebi que para um jovem nesta área, o Grão-Ducado representava uma verdadeira terra de oportunidades, que havia um lugar a ocupar no mercado do chocolate."

Em paralelo com as suas experiências profissionais em estabelecimentos luxemburgueses, Gabriel deu os primeiros passos para fundar a sua própria empresa, comprou as primeiras máquinas e começou a criar as suas primeiras receitas. Em dezembro de 2022, o francês demitiu-se da Oberweis e lançou oficialmente a sua empresa no início de fevereiro.

A "Chocolaterie RG" é surpreendente em muitos aspetos. Gabriel produz os seus chocolates no seu próprio apartamento, em Pétange. "Tivemos de repensar tudo para termos o direito de fabricar em casa, porque as normas sanitárias são muito rigorosas."

As formas geométricas são a imagem de marca de Gabriel, que já prepara os coelhinhos da Páscoa

As formas geométricas são a imagem de marca de Gabriel, que já prepara os coelhinhos da Páscoa © Créditos: Guy Jallay

Barras de chocolate negro, de leite e branco, mendiants (doce francês com chocolate, nozes e frutos secos), marshmallows... o jovem já se pode gabar de ter uma gama particularmente completa. Gabriel só trabalha com as favas de cacau mais nobres, pois quer investir particularmente nas notas aromáticas. "Tenho chocolates de nove origens diferentes. E o chocolate é um pouco como o vinho, tem notas diferentes dependendo do local onde o cacau foi cultivado".

"Por exemplo, ofereço dois chocolates criados a partir de favas de Madagáscar". Um terá uma nota aromática de banana, enquanto o outro se inclina mais para os frutos vermelhos. Também trabalho com um fornecedor de Cuba. A sua plantação de cacau substituiu uma antiga plantação de tabaco, pelo que o chocolate terá uma nota aromática de tabaco. É muito bom, garanto-o", afirma.

O chocolate é um pouco como o vinho, tem notas diferentes dependendo do local onde o cacau foi cultivado
Gabriel Mjahed

Naturalmente, a qualidade também significa preços mais altos. O francês está ciente disto e explica que vende as suas criações a 100 euros por quilo. Portanto, pode esperar pagar cerca de dez euros por cada tablete. "É claro que é caro, mas a qualidade paga-se. Já pago muito pelo meu cacau e, para ser honesto, não aceito mais margem do que outro chocolateiro. Além disso, não tenho o rendimento de um grande laboratório de produção."

A assinatura da Chocolaterie RG é sem dúvida a forma geométrica das criações de Gabriel, incluindo os coelhinhos da Páscoa. "Também gosto de personalizar tabletes com, por exemplo, um nome ou logótipo de uma empresa", explica.

Mais do que uma simples chocolataria, Gabriel está interessado em partilhar o seu conhecimento com outros. Para isso, realiza workshops no seu ateliê, onde crianças e adultos podem aprender a criar chocolates. "Não quero apenas vender os meus produtos, mas também ajudar as pessoas a descobri-los", assegura.

Os workshops serão realizados também aos sábados na sua loja pop-up em Esch-sur-Alzette (em 121, rue de l'Alzette), inaugurada a 14 de março e onde permanecerá até 3 de junho.

Para além do estabelecimento temporário, as criações de Gabriel estão à venda no site oficial da Chocolaterie RG. As reservas para os workshops também podem ser feitas online.

(Artigo originalmente publicado no Virgule e adaptado para o Contacto por Maria Monteiro.)