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OpiniãoMarinha

Mais marés que marinheiros

Só no ano passado, 458 militares que serviam a Marinha, em regime de contracto abandonaram aquele ramo.

Treze militares da Marinha de Guerra conseguiram chamar a atenção dos portugueses para as condições degradantes dos navios de patrulha, em que operam. A controvérsia está para durar.

A missão consistiria no acompanhamento de vigilância de um navio russo que passaria ao largo da Ilha de Porto Santo, aparentemente, carregando material sensível. O objectivo era apenas mostrar o navio-patrulha, dissuadindo qualquer movimento hostil, ao navio russo.

Mas, no momento da partida, quatro sargentos e nove praças recusaram-se a embarcar, justificando a sua atitude com as condições degradantes do navio Mondego. Dos dois motores só um funcionava e a isto somavam-se muitas mais anomalias que a imprensa e as televisões têm relatado, com apreciável minúcia.

A reacção da Marinha foi rápida, e o almirante Gouveia e Melo deslocou-se de imediato para o “Mondego”, onde falou com a tripulação, incluindo os sublevados.

Criticou-os sem qualquer ambiguidade, mas nas entrelinhas do que disse deixou passar a ideia de que também ele compreendia e deplorava as condições lastimáveis em que a Marinha está a operar. Pelo menos, foi essa a ideia que recolhi, ao ler o discurso.

Surgiu de imediato a ideia que seriam exemplarmente sancionados, quem sabe até, com a expulsão da Marinha.

Tenho dúvidas de que isso seja uma punição que lhes desagrade muito. Porquê? Só no ano passado, 458 militares que serviam a Marinha, em regime de contracto abandonaram aquele ramo. Contas feitas, isto representa a saída diária de 1,3 marinheiros.

Tenho para mim que estes 13 também querem mudar de vida e abandonar a Marinha. Na base destas deserções estão as pouco atractivas condições salariais, o esforço enorme a que estão sujeitos, passando muitas mais tempo embarcados, do que o recomendável.

Uma fonte anónima do Estado-Maior da Armada disse à imprensa que se todas as cinco fragatas estivessem operacionais, não haveria marinheiros, para as respectivas tripulações. Como uma mão lava a outra, a marinha vai respirando: falta material que está inoperacional, mas também falta pessoal, para embarcar. Reciprocamente, as duas desgraças anulam-se.

Falta material que está inoperacional, mas também falta pessoal, para embarcar. Reciprocamente, as duas desgraças anulam-se.

Desta vez, a revolta veio da Armada. Mas a qualquer momento pode estalar na Força Aérea, ou no Exército, onde as carências não são menores.

Última nota: a falência e dois bancos norte-americanos e a tremedeira que faz abanar o Credit Suisse trouxeram de volta o espantalho de mais uma crise financeira. Os banqueiros da Europa querem um travão na escalada galopante das taxas de juro. Christine Lagarde está insensível a esses apelos e diz que será com o agravamento dos juros que vai fazer cair a inflação. Nas próximas semanas, veremos quem tem razão.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

Sérgio Ferreira Borges, professor e jornalista

É professor de jornalismo, no Centro Protocolar de Formação de Jornalistas e em várias universidades. Como jornalista, trabalhou em jornais, rádios e concluiu a sua atividade, na EuroNews, a televisão pan-europeia de notícias. Foi assessor de imprensa e chefe de gabinete, da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.