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Pandemia

Governo português discute alívio de restrições com especialistas esta quarta-feira

Especialistas apontam início da primavera como altura mais provável para cair a maioria das restrições. Para já, poderá acabar o uso massivo de testes e limites à lotação de espaços comerciais. Fim do isolamento de assintomáticos também está a ser ponderado.

Lisboa

Lisboa © Créditos: Lusa

Fonte: Redação

O primeiro-ministro, António Costa, convocou para esta quarta-feira, 16 de fevereiro, uma reunião com especialistas e responsáveis políticos, no Infarmed, em Lisboa, e em cima da mesa pode estar o levantamento de algumas restrições, como já tem vindo a ser abordado por diferentes especialistas, ao longo das últimas semanas.

A reunião deverá servir para fazer o ponto da atual situação pandémica, que ao que indicam os números parece ter ultrapassado o pico da vaga da Omicron, e també para avaliar o levantamento de restrições. Na semana passada, António Costa admitiu aos jornalistas que Portugal pode avançar para o levantamento de um conjunto de restrições, tal como já acontece em vários países da União Europeia, revelando que os especialistas estavam "a ponderar que alterações devem ser introduzidas face à evolução da covid-19”.

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As conclusões dessas análises devem ser conhecidas esta quarta-feira e, segundo avançou ontem o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, as medidas anunciadas não serão "propriamente novidade", assumindo que corresponderão a "uma redução de restrições" e a "uma nova fase em termos da transição da pandemia para a endemia".

Mas o ritmo e o grau de alívio das restrições não é consensual entre os especialistas. Se por um lado os médicos de saúde pública consideram que Portugal está numa “fase oportuna” para se pensar no alívio “progressivo, proporcional e cauteloso” das restrições relativas à pandemia, há investigadores, como Miguel Castanho, do Instituto de Medicina Molecular ainda é cedo para aliviar as restrições nesta fase da pandemia.

O especialista defendeu, em declarações à Agência Lusa, que é necessário ter valores “bastante mais baixos” em termos de incidência, internamentos e óbitos por covid-19.

"O que temos que decidir agora é qual é o ponto ideal para aliviar as restrições, que eu creio que não será já”. Para o investigador o número de óbitos ainda "está bastante elevado”, com um valor "absolutamente incomportável de mortes diárias”, sublinhou.

Esta análise é corroborada pelo último relatório de avaliação das "linhas vermelhas" do Instituto Ricardo Jorge e da Direção-Geral da Saúde, publicado na passada sexta-feira. Segundo o boletim, a mortalidade específica por covid-19 correspondeu, em media, a 62,9 óbitos em 14 dias por milhão de habitantes, apresentando "uma tendência crescente". "Este valor corresponde a uma classificação do impacto da pandemia como muito elevado", sinalizou o relatório.

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Mais otimistas estão os médicos de saúde pública, que consideram que o país está "numa fase oportuna para pensar no alívio das restrições, porque estamos na parte descendente da onda da Ómicron, com o Rt [índice de transmissibilidade] abaixo de 1 e uma diminuição dos casos”, como disse o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Gustavo Tato Borges, à Lusa.

Ainda assim ressalvou que "o alívio das medidas tem que ser progressivo proporcional e cauteloso".

Nesta primeira fase, o médico aponta como uma das restrições que poderá cair a obrigatoriedade de apresentar testes e certificados de vacinação para entrar em alguns espaços, uma vez que “a grande maioria” da população elegível está vacinada ou recuperada.

Por outro lado, defende que há “três situações fundamentais” em que devem continuar a ser exigidos, como no acesso a hospitais, lares e unidades de cuidados continuados na comunidade, e a grandes eventos.

Para Gustavo Tato Borges também poderá cair, este mês, a limitação da lotação máxima dos espaços comerciais, assim como o uso de máscara em espaços exteriores.

Já o virologista Pedro Simas, considera que Portugal está em condições de reduzir “drasticamente as regras” e de começar a voltar à normalidade, considerando que o fim do isolamento de infetados deve ser decidido “o mais rapidamente possível”.

O virologista do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa afirmou à SIC Notícias, que o país deve, nesta fase, passar a encarar o tratamento da covid-19 como o da gripe. "Quando uma pessoa tinha gripe precavia-se, se estava doente ou com febre não ia trabalhar”, e se optar por ir deve levar "uma máscara como fazem os asiáticos”, sustenta, defendendo o fim da testagem massiva, reservando-se para os contextos hospitalares e para os lares, e o fim da separação de alas covid-19 nos hospitais, como pedem também alguns médicos.

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No Luxemburgo, desde 11 de fevereiro que a quarentena deixou de ser obrigatória para quem tiver tido contacto com um infetado, independentemente de estar vacinado ou recuperado da doença e Portugal poderá seguir o mesmo caminho em breve, talvez antes de março.

“Provavelmente as pessoas assintomáticas vão deixar de ficar isoladas", afirmou à CNN Portugal o bastonário da Ordem dos Médicos Miguel Guimarães, adiantando que essa decisão deverá ser tomada "ainda durante este mês”.

Maioria das restrições deve cair com a chegada da primavera

À mesma estação, o responsável adiantou que a maioria das restrições deverão cair com a chegada da primavera, em meados de março. Depois disso, considera Miguel Guimarães, "as pessoas vão fazer a sua vida praticamente normal”.

Esta posição já tinha sido defendida, no início deste mês, pelo infeciologista António Silva Graça, na RTP3.

"Com a descida do número de novos casos, que se espera poder vir a acontecer dentro de provavelmente dez dias e também com a redução do número de doentes internados", será possível o alívio das medidas, que, defendeu, deve ser "gradual" e preferencialmente mais próximo da primavera, com o tempo um pouco mais quente, "para ter uma conjuntura favorável para a mudança", afirmou àquele canal.

Raquel Duarte, uma das especialistas que participa habitualmente das reuniões no Infarmed e que foi responsável pelo plano de desconfinamento faseado em 2021, afirmou ao jornal Público, na semana passada, que o país está pronto para “eliminar medidas com prudência”.

“Passámos agora o pico da onda e é provável que assistamos à diminuição da incidência e a um período de acalmia. Devemos ajustar as medidas ao risco da infeção na comunidade e às consequências da doença", considerou, apostando, tal como em 2021, num alívio "com prudência, passo a passo", em que as consequências desse levantamento devem ser monitorizadas, tendo em conta novas variantes, surtos ou agravamento dos números.