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Eleições no Brasil

UE vê em Lula um amigo para fazer negócios

Com a promessa de que a Amazónia será protegida, o acordo de comércio entre a UE e os países do Mercosul poderá ser retomado. Tornando a América do Sul um importante fornecedor alimentar, quando a crise na Ucrânia ameaça a fome mundial.

© Créditos: AFP

Jornalista

As relações entre a União Europeia e o Brasil andavam péssimas há anos, o que não é segredo para ninguém. Em 2019, com os grandes incêndios na Amazónia que fizeram manchetes em todo o mundo, o presidente francês Emmanuel Macron foi um dos que mais se opôs à assinatura do acordo do Mercosul, gerando uma troca de acusações feias entre o Eliseu e o Palácio do Planalto ocupado por Jair Bolsonaro.

Por causa da posição de Bolsonaro de não travar a exploração comercial massiva da Amazónia, a UE bloqueou as negociações sobre o acordo comercial que estava a ser discutido com os chamados países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai).

Em 2020, numa reunião em Berlim, o ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês, Jean Asselborn, disse que o Governo do Luxemburgo não podia naquele momento apoiar a assinatura do acordo de comércio com o Mercosul enquanto não houvesse "compromissos tangíveis para proteger o ambiente e para combater a desflorestação".

Trabalhar juntos numa agenda global

Mas com o resultado da eleição de ontem, os líderes europeus apressaram-se a festejar a mudança de regime, de política climática e de novo parceiro de negócios. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressou “esperança e desejo de trabalhar com o próximo presidente para poderem resolver problemas globais, principalmente alterações climáticas, proteção da biodiversidade, segurança alimentar e questões de comércio”, segundo disse esta tarde a porta-voz da Comissão, Dana Spinat.

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O responsável europeu das relações externas, Josep Borrell, salientou que está “desejoso de trabalhar com o presidente Lula, o seu governo, o Congresso e com as autoridades do Estado”, em todos os aspetos onde a UE e o Brasil partilham “valores comuns desde há muito tempo, sendo eles o comércio, a agenda digital, as alterações climáticas”.

Segundo uma porta-voz da Comissão Europeia, o Brasil e a UE vão “trabalhar juntos em favor de um desenvolvimento inclusivo e sustentável”.

Novos tratados comerciais

Esta segunda-feira, os ministros europeus do Comércio estiveram reunidos em Praga (sede da presidência checa da União Europeia, que termina no final do ano) com a representante do Comércio dos EUA, Katherine Tai, para discutir a maior pedra no sapato nas relações entre os EUA e a Europa, a legislação recentemente aprovada Lei de Redução de Inflação. Esta lei, ao mesmo tempo que acelera a transição climática, impede o acesso de carros e baterias europeias ao mercado americano, num duro golpe para as expetativas industriais europeias.

Além deste tema, na conferência de imprensa no final do conselho de ministros do Comércio, o comissário europeu com a pasta das relações comerciais, Valdis

Dombrovskis, salientou que “todos notámos o facto que as mudanças políticas no Brasil poderão dar um novo ímpeto entre a UE e o Mercosul”. E salientou que no contexto da invasão da Rússia à Ucrânia, todo o comércio mundial está em vias de se redefinir.

No atual clima geopolítico, a ratificação do acordo do Mercosul, quando estará no Planalto um “parceiro de confiança” na proteção da Amazónia, poderá ser importante para diversificar a proveniência de importantes mercadorias, incluindo no setor alimentar.

Proteger as florestas com o comércio

Neste momento, está em discussão a nível das instituições europeias legislação para proteger as florestas, que inclui a proibição de importação de produtos que promovem a desflorestação, entre eles a soja, a carne, o óleo de palma, o cacau, ou as madeiras exóticas.

A posição do Parlamento Europeu sobre esta matéria já foi aprovada e aplaudida pelas associações ambientalistas que vêem no comércio um instrumento poderoso de chantagem climática. Para a aprovação final da lei, falta agora a discussão final com os ministros dos 27 Estados-membros.

No que diz respeito à Amazónia - que os cientistas receiam já tenham passado o “tipping point” – um nível de perda de biodiversidade que levará ao colapso de todo o ecossistema, a vitória de Lula é vista como um passo para a salvação. O novo presidente que começará o seu terceiro mandato em janeiro, é visto na UE como uma garantia de que a desflorestação da Amazónia será travada.

Ao conhecer os resultados, na noite deste domingo, Lula da Silva escreveu no seu Twitter que “o Brasil está pronto a assumir o se protagonismo na luta contra a crise climática, protegendo todos os nossos ecossistemas e especialmente a Amazónia”. A ambição expressa foi de que se chegasse à “desflorestação zero”.

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Durante a presidência de Bolsonaro, a Amazónia sofreu níveis recorde de desflorestação, tendo sido atribuídas milhares de licenças de exploração de minérios e de criação de gado (o maior fator de abate de árvores). A Amazónia é considerada por cientistas como um dos mais importantes sistemas de manutenção do clima, e fundamental para o equilíbrio do ciclo da água em toda a América do Sul.

A luta para proteger as florestas ancestrais – e a Amazónia é a maior floresta tropical do mundo – foi um dos compromissos assumidos na conferência mundial do clima COP26, em que mais de 100 governos prometeram parar e reverter a perda de biomassa até 2030.