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Imigrantes turcos "ocupam" Place d'Armes

Não é a praça Taksim, mas para a pequena comunidade turca no Luxemburgo esta foi a forma encontrada para mostrar a solidariedade com os manifestantes na Turquia, vítimas de violência policial. Muitos saíram pela primeira vez à rua para  protestar contra a prepotência e a censura do Governo do seu país.

Fotos: Eric Krier

Fotos: Eric Krier

"É a primeira vez que estou a manifestar-me por alguma coisa", garante Faruk, natural de Istambul, há quatro anos no Luxemburgo, "tal como a maioria dos manifestantes no meu país".

O engenheiro turco foi uma das cerca de oitenta pessoas que hoje "ocuparam" a Place d'Armes durante algumas horas para mostrar solidariedade com os familiares e amigos na Turquia que participam em protestos diários há mais de uma semana.

Na maior faixa exibida pelos manifestantes, pode ler-se, em luxemburguês, "o Luxemburgo está convosco". Noutra, "Occupy Gezi", uma referência ao parque homónimo perto da praça Taksim, em Istambul, onde tudo começou, há oito dias. Nesse dia manifestantes pacíficos foram atacados pela Polícia, gerando uma onda de solidariedade que se converteu num levantamento nacional.

Nas ruas de Istambul e Ancara e em dezenas de outras cidades, a Polícia de choque tem estado a usar gás lacrimogéneo e canhões de água contra os manifestantes, fazendo pelo menos três mortos e milhares de feridos. E nos últimos dias a polícia deteve dezenas de manifestantes por causa dos tweets e das mensagens enviadas pelas redes sociais, em alguns casos por causa de mensagens tão inócuas como informações sobre os locais onde é possível encontrar internet sem fios, ou avisos para evitar locais onde está a polícia de choque.

"O Governo tem de punir os responsáveis pelos abusos policiais e pela censura", defende Faruk, que garante que os protestos são "apartidários" e representam "a maioria da sociedade civil".

A gota de água

O protesto iniciado no parque Gezi foi só "a gota de água que fez transbordar o copo", explica Faruk, recordando a lei aprovada no final de Maio que limita a venda de álcool, a censura dos órgãos de comunicação, e o código moral de inspiração islâmica para limitar beijos ou mesmo casais de mãos dadas no metro.

O mundo olha espantado para a determinação dos manifestantes, mas as pessoas que saíram à rua na Turquia aguentavam há anos em silêncio a prepotência do conservador primeiro-ministro turco, Erdogan, no poder desde 2002, garantem os imigrantes turcos no Luxemburgo.

"As pessoas estão zangadas há muito tempo. A minha mãe anda há dez anos a falar sozinha com a televisão. Sempre que o Erdogan ou outro membro do governo aparecem a anunciar medidas que ela considera anti-democráticas, ela começa a gritar com a televisão", conta a pianista de origem turca Arzu Kirtil, que obteve a nacionalidade luxemburguesa há um ano.

A pianista de 41 anos regressou ontem de Ancara, onde se deslocou para dar um concerto com a irmã gémea, a também pianista Gamze Kirtil. Há três dias, estiveram juntas nos protestos nas ruas da capital turca, acompanhadas pelos pais, ambos reformados: o pai foi instrutor de desporto na Força Aérea turca e a mãe era professora de música. Pessoas da classe média que estão longe de ser radicais, garante.

"Erdogan avaliou mal a sociedade civil turca. Desde que chegou ao poder, a missão dele tem sido acabar com o secularismo na Turquia, e as pessoas temem-no. Tornou-se arrogante. Ele achava que ninguém ia defender o Estado secular", explica Arzu Kirtil.

Os protestos que continuam diariamente na Turquia mostram que afinal estava enganado.

Paula Telo Alves